Casados à Primeira Vista: A Entrevista

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Será que o Eneagrama também é capaz de salvar casamentos?

No dia 21 de outubro, 1.2 milhões de pessoas viram dois portugueses, Dave e Eliana, casarem-se sem nunca se terem conhecido anteriormente, na SIC “Casados à Primeira Vista”: Novo programa do horário nobre de domingo.

O programa conta com uma equipa de quatro terapeutas, incluindo eu, Eduardo Torgal, com a missão de construir do zero uma relação saudável, baseada na confiança, comunicação e muita dedicação.

Vê a entrevista que dei à NiT, onde conto um pouco dessa experiência incrível!

Qual foi o primeiro pensamento que teve quando recebeu o convite para ser um dos quatro terapeutas de “Casados à Primeira Vista”?
Eu conhecia o formato internacional, via em casa muitas vezes enquanto profissional de relacionamentos, é uma área em que trabalho no dia a dia. Acho que a principal mensagem que se tem de retirar desta experiência é o que é que as pessoas lá em casa vão conseguir aprender sobre os seus próprios relacionamentos. E isso foi um estímulo muito importante para mim para poder dizer “sim”, porque não estaria disponível para participar num reality show ou qualquer coisa do género que não trouxesse uma mensagem para as pessoas em casa. Quando percebi o tipo de programa e o que se pretendia fazer foi fácil decidir.

 

Qual era a versão internacional que via?
A australiana. Acho que foi a mais bem conseguida. Os terapeutas têm uma proximidade grande em relação ao processo e às pessoas, mas não são muito incisivos, não exageram na participação que fazem, como vi noutras edições, em que foram demasiado protagonistas. E com este distanciamento conseguimos que as pessoas em casa entendam melhor as próprias relações.

 

Já conhecia algum dos seus três colegas? O Fernando Mesquita, a Cris Carvalho e o Alexandre Machado.
Conhecia o Fernando, do trabalho, ele é da área da sexologia, e quando tenho clientes em que sinto que não posso ajudá-los com essa vertente gosto de o recomendar. E conhecia a Cris, também está nesta área do coaching há cerca de 15 anos, como eu. Somos pessoas que  andamos neste circuito há alguns anos e conhecemo-nos todos.

 

A partir do momento em que receberam os perfis das pessoas, que critérios usaram para escolher quem ficava e saía do programa?
A parte interessante dos castings é que estamos a trabalhar com uma equipa multidisciplinar. Cada um de nós tem uma vertente diferente e é interessante quando nos juntamos e percebemos que a conclusão de um encaixa perfeitamente na justificação do outro. Muitas vezes discutimos certos aspetos que nos deixavam alerta para que, numa fase posterior, pudéssemos trabalhar certas coisas com esses casais.

 

Mas que detalhes específicos é que fizeram com que algumas pessoas ficassem de fora?
Quando estamos a tentar criar um match, no meu caso analiso o perfil de personalidade — segundo um diagrama de nove perfis de personalidade —, e depois o Love Map: dentro das nossas relações passadas, das experiências com os nossos pais e amigos, o que é que para nós passou a ser um modelo de relação ideal e o que passou a ser o modelo de que nos queremos afastar.

 

É isso que é o Love Map?
O Love Map define essas quatro vertentes: o próprio perfil da pessoa; uma parte mais particular, sobre se essa pessoa é social, dá mais importância às pessoas que estão à sua volta, se é mais independente; e depois compreender os perfis a que se querem aproximar; e os perfis de que se querem afastar, tendo em conta a sua história de vida.

Do ponto de vista técnico, podemos dividir todas as pessoas do mundo por estes nove perfis?
Este mapa estuda aquilo que são as motivações base por detrás dessas pessoas. Todos nós temos uma motivação base, muitas vezes inconsciente. Por exemplo, se um perfecionista acha que para ser amado, respeitado e aceite no seu dia a dia ele tem de ser perfeito, o esforço de se aperfeiçoar é tão grande que nós compreendemos que há uma irritação própria. Há um conjunto de comportamentos que decorre dessa preocupação. Só que ela vai estar lá permanentemente. Agora o que temos são diferentes níveis de consciência de cada pessoa. Eu posso ser um perfecionista que é uma pessoa que tem de ter as coisas todas arrumadinhas, e posso ser um perfecionista que já lida um pouco melhor com isso e que não é tão consciente.

Mas existem pessoas que podem estar numa linha ténue entre dois perfis?
Há pessoas que nos podem confundir se não tivermos o conhecimento suficiente sobre essa pessoa. Até se a própria pessoa se analisar pode confundir-se, porque muitas vezes acha que é aquilo que as outras pessoas acham dela. O nosso trabalho também é desmontar essas ilusões. O match é o primeiro passo e eles vão ter de construir uma relação com alguma pressão, porque o tempo está em contrarrelógio. Às vezes numa semana vivem o equivalente a um ano de um casal normal. Nós conseguimos fazer estes matches perfeitos e justificar porquê, mas o amor vai ter de ser criado por eles.

E é saudável um casal viver numa semana o que normalmente se vive no ano?
Apesar disso, pode resultar. O nível de crescimento pessoal que cada um deles tira desta relação é incomparável com qualquer outra pessoa. Aquilo que eles aprendem sobre eles próprios e o que falhou nos relacionamentos anteriores, aquilo que querem para um relacionamento futuro, é um dado muito relevante. Dos estudos internacionais, 85% dos participantes — independentemente de terem chegado ao final ou não —, depois de o programa acabar, num período de um ano encontram alguém e casam definitivamente depois de uma relação bastante construída. As relações tocam nos pontos mais sensíveis que temos, é aí que mostramos a nossa parte mais frágil e confrontadora. Eles vão aprender muito mais rapidamente e todos nós podemos crescer com eles.

É uma grande responsabilidade para si casar desconhecidos?
Claro que é sempre uma grande responsabilidade, até quando penso que há um casal amigo que coloco em contacto já sinto uma certa responsabilidade, quanto mais isto de as pessoas casarem. Assumo essa responsabilidade como algo muito sério.

Em relação à lua de mel, são os terapeutas que escolhem as viagens? Tem a ver com as personalidades das pessoas?
Não, isso é a equipa de produção que decide, estamos fora dessa escolha. Se nós pudéssemos escolher as nossas viagens já não era mau [risos].

Como é que tem sido fazer o acompanhamento dos casais ao longo das semanas?
Depois desse match ser feito, eles têm um acompanhamento regular, há momentos em que estamos todos juntos a fazer acompanhamento aos casais, e depois momentos em que vamos ter com casais específicos para avaliar o momento da relação, perceber se há alguma coisa que pode ser feita. Há desafios que vamos colocando, etc.

O que pensou que podia resultar melhor neste match que fizeram entre o Dave e a Eliana?
O Dave precisava de uma relação mais estável, de um porto seguro para parar um pouco a sua vida de solteiro. Queria entrar num novo momento da sua vida. A Eliana também precisava de um porto seguro, sendo que, apesar de ser um pouco mais instável emocionalmente, é uma pessoa de tipo 2, muito prestável e dedicada. E o Dave, como tipo 9, é uma pessoa que acolhe muito bem. Achamos que é um match que combina. E a intenção não é trazer uma pessoa preparada para a relação. É que a pessoa possa criar e crescer na relação. Sabemos que estas duas pessoas vão ter de crescer bastante para o relacionamento funcionar.

E o que pensou da Graça e do José?
Têm coisas muito particulares, do ponto de vista cultural, da forma de estar, da preocupação em relação à imagem. Eles são muito compatíveis, mas há áreas em que são completamente incompatíveis. A Graça é um tipo 7 mais extrovertido e eufórico, o José Luís é um tipo 6, uma pessoa mais ponderada. Então vão-se ajudar neste puxar e esticar, vão encontrar um equilíbrio que será muito interessante para ambos. O trabalho deles é de cedência e estão numa idade inacreditável para fazer esse trabalho.

Sobre o Hugo e a Ana, ainda não vimos muita coisa. O que vos fez fazer este match?
Eles têm pontos comuns: a alegria, a espontaneidade que ambos conseguem ter. O grande desafio da parte deles em crescer é que o Hugo, como tipo 2, vai querer uma relação mais próxima, e a Ana vai precisar de mais liberdade como perfil tipo 7. Agora, ambos vão ter de crescer. O Hugo não tem nada a ver com o perfil padrão habitual da Ana e nós queremos cortar essa tendência de relacionamentos. Quando percebemos que há um padrão de não funcionamento recorrente, tentamos interromper esse padrão.

Alguma vez se candidataria a este programa?
Neste momento, felizmente, estou casado e muito bem casado. Mas num momento em que sentisse que a minha vida estava a precisar de um relacionamento e não o estivesse a encontrar cá fora, no dia a dia, ou se estivesse a fazer más escolhas, com certeza confiaria em especialistas para me ajudarem nesse sentido. É uma excelente oportunidade para encontrar o amor, mas mais do que isso, é uma excelente oportunidade para as pessoas crescerem, e não há melhor área na vida para crescer do que nos relacionamentos. Todas as pessoas que chegaram à fase final de match, agradeceram imenso toda a experiência que tinham tido até ali, sem saber se tínhamos encontrado um match para elas.

Via o formato internacional, agora está do lado da produção do programa em Portugal, era aquilo que imaginou que seria?
Acho que superou as expetativas e tenho de agradecer à equipa fantástica que foi formada à volta do programa. Não pensei que fosse tão sério, por ser televisão, e preocupado com as pessoas. Tem sido surpreendente para mim. A diferença do trabalho que faço fora da televisão é que aqui há um acompanhamento muito mais próximo do que alguma vez poderei dar semanalmente ou quinzenalmente com algum cliente com quem trabalhe.